Como o tráfico de animais silvestres no Ceará tem migrado de feiras livres para as redes sociais; veja mensagens

  • 16/08/2026
(Foto: Reprodução)
Como o tráfico de animais silvestres no Ceará tem migrado daa feiras para as redes sociais Traficantes têm se aproveitado da discrição nas redes sociais para anunciar a venda de animais silvestres. Sem precisar expor o próprio rosto ou o nome, as plataformas viraram alternativa moderna para a prática criminosa, na tentativa de facilitar o contato entre traficantes e compradores, e também de fugir do radar das autoridades. “Eles observaram que esse meio virtual é mais tranquilo, é mais seguro, porque eles não precisam se expor tanto, como quando [o tráfico] era feito há muito tempo atrás, nas feiras livres. Então eles estão migrando para esse ambiente virtual”, explicou Saulo Gouveia, coordenador operacional do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). ✅ Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp Imagens recebidas pelo g1 mostram que os traficantes entram em grupos — principalmente de Facebook, WhatsApp e Telegram — e anunciam os animais que têm disponíveis para venda. Nos grupos, os compradores (que também cometem crime; entenda mais abaixo) aproveitam para buscar os criminosos a partir das próprias demandas. Perfis muitas vezes sem foto, com nomes aleatórios, enviam imagens e vídeos dos animais, alguns com os preços já informados, outros com o “valor no PV” - ou seja, informado apenas na conversa privada com o traficante. Macacos, aves e répteis podem custar milhares de reais no “marketplace” do crime. O g1 procurou a Meta (proprietária do Facebook e do WhatsApp) e o Telegram para comentar sobre o tráfico de animais silvestres nas plataformas, mas não recebeu resposta até a publicação desta matéria. Veja as mensagens criminosas: Traficantes usam grupos de mensagens para vender animais silvestres. Saulo Gouveia informou que o Ibama observa há, pelo menos, sete anos a migração dos traficantes que costumavam aproveitar as feiras livres para os grupos de mensagens e outras redes sociais. A entidade, em parceria com outras autoridades, se reinventa para monitorar e combater essa forma mais tecnológica de cometer os crimes. “Nós estamos trabalhando fortemente nessa linha, tanto de investigação, como também de fiscalização. Estamos nos aprofundando, também nos readequando a essa nova realidade do ambiente virtual para tentar combater o tráfico de animais silvestres virtual”, complementou Saulo. A Polícia Civil e o Ministério Público do Ceará (MPCE) também atuam no combate à comercialização ilegal de animais (veja mais detalhes abaixo). No primeiro semestre deste ano, a polícia já registrou 32 prisões em flagrante por tráfico de animais silvestres no estado. Em igual período do ano passado, foram 62 prisões, conforme dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS). Mas nem toda abordagem resulta em prisão. Ao total, a Polícia Civil registrou 91 ocorrências de tráfico de animais silvestres no Ceará, no primeiro semestre de 2026. Em igual período do no ano passado, foram 109 ocorrências. Infográfico traz detalhes sobre o tráfico de animais silvestres no Ceará. Louise Anne Dutra/SVM Das feiras às redes sociais Em maio deste ano, um homem de 29 anos foi autuado e multado em R$ 60,5 mil por oferecer animais na internet. Ele era monitorado pelo Ibama, que foi à residência do suspeito, em Cruz, no interior do Cearpa, após um anúncio de venda dos bichos circular nas redes sociais. No local, foram encontradas e resgatadas 17 aves e 4 tatus. O suspeito, que não teve a identidade repassada, não foi preso à época, pois estava acamado após um acidente de motocicleta. “[Os traficantes] entram em grupos maiores, oferecem em grupos de todo tipo. Tem grupos específicos para a própria comercialização de animais, que são animais domésticos, animais silvestres”, comentou Saulo. Traficante de animais silvestres foi autuado e multado em R$ 60,5 mil por oferecer aves e tatus em grupo de WhatsApp no Ceará. Reprodução Em outro caso, jaguatiricas, macacos, tucanos, araras, papagaios e diversas espécies de pássaros, entre elas a jandaia - ave ameaçada de extinção - estavam entre os animais comercializados em um grupo de WhatsApp desarticulado no Ceará. O esquema criminoso, que possuía ramificações em outros estados, levou à prisão de seis pessoas durante a 12ª fase da Operação Fauna Livre, em 2025, e possibilitou o resgate de 90 aves mantidas em cativeiro. Além disso, expôs o cenário, que se intensificou nos últimos anos, da migração da comercialização ilegal de animais das feiras livres para as redes sociais. Porque o traficante, como ele também não precisa se expor na rua, em feiras livres para fazer a comercialização dos seus animais, ele faz a tratativa diretamente com o seu ‘cliente’, que já recebe em casa o animal. A medida seria uma forma de evitar operações como a que ocorreu em novembro de 2025, na Feira da Parangaba, em Fortaleza, que resultou na captura de mais de 30 pessoas envolvidas no comércio de animais silvestres. A ação foi considerada a maior do Ibama naquele ano. “As redes sociais facilitaram essa comunicação entre traficantes e o comprador. Eles dão um jeito de entregar esse animal para o comprador. [A rede social] diminuiu essa distância”, reforçou Saulo. Apesar da movimentação tecnológica, os traficantes também seguem usando espaços como as feiras livres. No último dia 9 de agosto, uma operação realizada pelo Batalhão de Polícia do Meio Ambiente (BPMA) apreendeu 205 animais silvestres na Feira da Parangaba, em Fortaleza. A polícia aplicou multas que somaram R$ 329,6 mil para os responsáveis pelas infrações identificadas na ação de fiscalização. Na ocasião, os animais foram encontrados com ferimentos, falta de higiene, alimentação inadequada, restrição de movimentação e superlotação. 271 animais foram resgatados em situação de maus-tratos na Feira da Parangaba, em Fortaleza, durante operação realizada em outubro de 2025. Divulgação Crimes cometidos Delegado comenta movimento de traficantes de animais entre as feiras e as redes. A movimentação dos traficantes obrigou também a inteligência da polícia do Ceará a reformular o modo como o crime é evitado e combatido. “Os criminosos estão sempre se reinventando. Quando a polícia consegue acabar com uma associação criminosa, prender diversos indivíduos relacionados a essa prática, ele começam a migrar para outro tipo de estratégia”, explicou Wilson Camelo, delegado titular da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), da Polícia Civil do Ceará. “Eles costumam fazer essa negociação do tráfico, anunciar os animais em grupos fechados, em que as pessoas só entram com convite e utilizando também a ‘Dark Web’”, reforçou o delegado. A Dark Web é uma espécie de área oculta da internet, que não aparece em buscadores comuns. O delegado explicou que, durante as investigações, os policiais civis constatam que o tráfico de animais silvestres está inserido em uma rede de outros crimes, como associação criminosa e maus-tratos. “A gente conseguiu identificar que essas pessoas, que comercializam ilegalmente animais silvestres, elas praticam também o crime de associação criminosa. A gente identificou que tinha o caçador, que é o cara que tira o animal das matas, o transportador, o vendedor”, explicou Camelo. O delegado apontou ainda que, na maioria das vezes, os animais são encontrados presos em condições precárias, o que configura também o crime de maus-tratos. Além disso, há casos de criminosos que também foram autuados por lavagem de dinheiro e falsificação de documentos. “Esses criminosos, esses traficantes, são autuados com multas pesadíssimas pelos órgãos ambientais. Os traficantes que a gente conseguiu prender aqui [no Ceará], alguns deles tinham penas de multas aplicadas que superavam R$ 1 milhão. Então, essas pessoas acabavam utilizando contas bancárias vinculadas a uma companheira, a um filho, a um irmão, justamente para tentar ocultar esses valores que são adquiridos com a venda dos animais silvestres, com o tráfico”, disse Camelo. “A gente constatou também a questão da falsificação dos documentos, porque muitos desses traficantes, ao venderem esses animais, eles prometem ao comprador, às vezes a pessoa desavisada, que o animal é legalizado, e dão uma nota fiscal falsa para essa pessoa”, comentou o titular da DPMA. Camelo salientou também que o comprador do animal também pode responder criminalmente. “A pessoa que compra esse animal do traficante de animais silvestres também está praticando um crime ambiental, que é o crime de você ter em cativeiro, ter na sua residência, um animal silvestre”, destacou. Operação Fauna Livre Promotor comenta sobre estratégias para desarticular grupos de traficantes de animais. O Ministério Público do Ceará (MPCE), assim como os demais órgãos, também intensificou o combate ao tráfico de animais silvestres no estado. Em parceria com a Polícia Civil, desde 2022 o MP realiza a Operação Fauna Livre, que já teve 12 fases no Estado. Em 2025, o órgão também instituiu o Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema), que atua de forma preventiva e repressiva em casos relativos a danos ambientais. Para o promotor de Justiça Marcus Amorim, coordenador do Gaema, além de contribuir para a venda ilegal, as redes sociais impulsionaram a busca de animais silvestres. “Os animais silvestres não podem ser tratados como animais domésticos. Esse fenômeno que vem sendo muito impulsionado pelas redes sociais, da ‘petificação’ dos animais silvestres, como macacos, cobras, araras, sendo exibidos como se fossem animais domésticos, junto as pessoas dentro de casa, em situações que às vezes são até danosas para os próprios animais. Isso infelizmente tem contribuído para gerar esse interesse, essa curiosidade aumenta a demanda junto aos traficantes por esses animais”, afirmou. Segundo o promotor de Justiça, por conta das redes sociais, as espécies exóticas também passaram a ser cada vez mais buscadas, o que alterou o cenário dos animais visados pelos traficantes. “O tráfico tradicionalmente sempre se concentrou muito, pelo menos aqui no Brasil, nos pássaros, chamados passeriformes, e também algumas aves, como os papagaios. […] No entanto, a gente vem percebendo um incremento tanto da oferta como da procura por outros tipos de animais, como macacos, cobras, principalmente as cobras exóticas, que vêm de outros lugares, répteis, e isso vem ampliando o portfólio do que é oferecido pelos traficantes”, disse o promotor de Justiça. Em outubro do ano passado, foram cumpridos 10 mandados de busca e apreensão e 5 mandados de prisão preventiva contra investigados pelo tráfico de animais silvestres em Fortaleza, Maracanaú, Caucaia, Horizonte, Bela Cruz e Camocim. A ação fez parte de uma mobilização nacional, intitulada "Operação Libertas", que envolveu os Ministérios Públicos, as polícias Civil e Militar e os órgãos de fiscalização dos estados do Ceará, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Alagoas, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Bahia. No Ceará, a operação resgatou 111 aves da fauna silvestre brasileira. Além dos animais, também foram apreendidos com os alvos um automóvel, quatro aparelhos celulares e oito armas de fogo. A investigação mirou uma rede de tráfico de animais liderada por um dos alvos da operação. Ele já havia sido preso anteriormente e, a partir da extração das mensagens do celular dele, autorizada pela Justiça, foi possível chegar a outros investigados. Eles atuavam na captura e comercialização dos animais, preferencialmente por meio da internet. Impacto ambiental do tráfico Filhotes de aves eram comercializados em grupo de WhatsApp desarticulado no Ceará na 12ª fase da Operação Fauna Livre, em 2025. MPCE/ Divulgação O tráfico de animais silvestres causa ainda um impacto que pode parecer silencioso, mas se soma em um cenário de outros problemas para a fauna e flora. “É especialmente preocupante aqui para a Caatinga, porque muitas espécies já enfrentam outras pressões, como a perda e fragmentação do seu habitat”, comentou Samuel Portela, coordenador de conservação da biodiversidade da Associação Caatinga. O biólogo contextualiza que “a gente tem muitas queimadas, muito desmatamento, isso vem reduzindo consideravelmente o ambiente dos nossos animais silvestres nativos. Então, já temos essa perda de habitat por conta de queimadas, da própria caça, e os efeitos dessas mudanças climáticas já são problemas que assolam a nossa biodiversidade”. O tráfico vem para intensificar ainda mais esse cenário, reduzindo as populações naturais e aumentando o risco de extinção de espécies que são endêmicas, que são espécies que só ocorrem naquele ambiente. Samuel salientou que cada animal capturado para os fins do tráfico representa um desequilíbrio ecológico, uma vez que o animal desempenha funções que são essenciais na cooperação entre a flora e a fauna. “Como, por exemplo, dispersão de sementes, polinização, controle de outras populações, de outras espécies, a manutenção de uma cadeia alimentar em si. Então, quando esses animais são retirados dos seus hábitos, do seu local de vida, todo o ecossistema é afetado”, destacou. A atuação dos traficantes pode causar ainda a presença de espécies invasoras, uma vez que existe a demanda de clientes por animais que não são encontrados em determinadas regiões. Alguns desses animais fogem dos viveiros comandados pelo tráfico e se inserem nos habitats inapropriados. Além disso, muitos compradores desistem de criar os animais, que acabam soltos na natureza. “É uma outra forma de causar impacto, quando você traz uma espécie que não é daquela região, que ela não tem um inimigo natural que faz o controle dela, ela pode muito bem se tornar uma praga, se ela é solta em um determinado local”, reforçou Samuel. ‘Algoritmo selvagem’ Conforme dados divulgados em 2024 pelo Instituto Ampara Animal, organização dedicada à proteção e conservação dos animais, cerca de 37% das buscas por compra de macacos e 18% das buscas por cobras e serpentes têm origem direta em conteúdos do Instagram. “Esse tipo de exposição reforça a falsa percepção de que manter animais silvestres como animais de estimação ou conviver com eles dessa forma é algo natural, seguro e inofensivo. Quando, na realidade, contribui para estimular a demanda pelo tráfico de fauna e coloca em risco tanto os animais quanto as pessoas”, disse Juliana Camargo, presidente do Instituto Ampara Animal. Em busca de conscientizar a sociedade sobre a relação entre o consumo de conteúdos digitais e o tráfico de animais silvestres, o Instituto desenvolveu a campanha “Algoritmo Selvagem (Reset)”. A iniciativa propõe um movimento simbólico de "reset" do algoritmo do Instagram, incentivando as pessoas a deixarem de curtir, compartilhar e consumir conteúdos que romantizam a posse de animais silvestres. “Pequenas mudanças de comportamento têm potencial para reduzir o alcance dessas publicações e enfraquecer um ciclo que contribui para o tráfico de animais silvestres. A mensagem central da campanha é justamente essa: o algoritmo é alimentado pelas nossas escolhas, e proteger a fauna também passa pela forma como nos comportamos no ambiente digital”, destacou a presidente do Instituto Ampara. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/16/como-o-trafico-de-animais-silvestres-no-ceara-tem-migrado-de-feiras-livres-para-as-redes-sociais-veja-mensagens.ghtml


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